Identidade brasileira

"O Brasil criando-se a si mesmo. Inventando um povo que constitui um novo gênero humano, fundindo herança genética e cultural de índios, negros e europeus num gênero humano novo, uma coisa nova que nunca houve é isso, uma nova aventura brasileira." (Darcy Ribeiro)

Tradutor

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Refletindo a Diversidade em Sala de Aula e o Papel do Professor Frente a Tantos Desafios


O Texto da Professora Carla Beatriz Meinerz, experimentações para o diálogo intergeracional nos processos de escolarização aborda ideias importantes sobre a diversidade geracional como forma de valorizar experiências vividas por todos, independentes da idade, sexo, cor da pele, inserção social e cultural. É interessante trazer a memória destas pessoas para a comunidade escolar, entretanto, no dia a dia, em nossa prática de professor percebemos o quanto é difícil envolver pessoas no mundo da Escola. Pensando na simples tentativa de aproximar os pais dos alunos à Escola, nos deparamos com enormes obstáculos por que os compromissos diários deles são mais importantes, e por que na visão dos Pais a escola é o espaço para as crianças. É como se o compromisso dos Pais acabasse no portão da Escola, pois não comparecem nem às reuniões que ocorrem menos de uma vez por mês. Sendo assim, como podemos pensar em construir um trabalho sobre a diversidade geracional? Penso que a proposta de um trabalho assim poderia contribuir muito para com o desenvolvimento da criança, justamente porque poderíamos através desta proposta promover um estreitamento de relações, conhecer melhor a história das famílias e das crianças, adolescentes e jovens. Com este estreitamento ficaria mais fácil de entender o mau comportamento dos alunos em sala de aula. Mau comportamento por que eles não têm o mínimo de entendimento sobre valores básicos, respeito ao ser humano, ao outro, não sabem ouvir e muitos menos aprender um ensinamento como no exemplo do “Avô Apolinário”, que conseguiu passar, através de suas atitudes os ensinamentos de valores básicos e respeito pelo outro. Que ensinou o seu neto a ouvir o próprio silêncio e com isso, na maturidade saber lidar com as questões que a vida impõe, mas não foi as palavras que fizeram o neto aprender os ensinamentos do avô, mas as atitudes. Pensando nisso, me pergunto: que atitudes os Pais dos meus alunos tem para com os próprios filhos? Que memórias de vida os Pais passam para seus filhos? Como podemos começar a mudar, transformar estas relações? Será que a Escola com seus professores, e toda a equipe diretiva e técnica vai conseguir promover estas transformações? Penso que é um trabalho para toda a comunidade, com a participação do Estado capacitando professores, promovendo aproximação com as famílias, mostrando que a Escola deveria deixar de ser mera obrigação para se tornar tão indispensável quanto o trabalho pessoal de cada um, quanto o laser, quanto ir a Igreja para salvar a própria alma. É certo que não podemos idealizar uma vivência nas famílias com costumes da cultura indígena, como vimos no exemplo citado pela autora. A cultura indígena é muito diferente da nossa cultura, das nossas vivências, entretanto, a nossa cultura possui valores que foram perdidos ao longo do tempo, por nos deixarmos influenciar, talvez por excessos diversos: de liberdade, falta de limites, falta de respeito pelo outro, distorção e perda de valores básicos do ser humano, e a palavra de ordem: eu posso tudo. Penso que a perda destes valores está relacionada à intenção de transformar uma sociedade que foi calcada em ditaduras, regime escravocrata e a lei do levar vantagem em tudo e que nesta busca pela justiça peca por excessos, dos quais mencionei. Neste busca por transformações e recuperação de valores precisávamos em uma ação conjunta buscar o equilíbrio, se é que ele existe. Precisamos encontrar o nosso jeito de ser e de respeitar, o nosso valor cultural e humano, sem cópias, deixando de ver a cultura alheia sempre como a melhor. Pode ser que o nosso ponto de partida para a construção de uma sociedade Escolar e em geral mais justa, evidenciando os valores básicos de cidadania seja através desta reflexão que estamos fazendo neste curso, para posteriormente partir para a ação. Mas é um movimento muito lento e em alguns momentos quase bate o desespero por pensar: onde vão parar estas crianças do Ensino Fundamental que não tem o mínimo de respeito pelo professor? Que futuro será o deles? Como o professor poderá avaliar seu crescimento, se não conseguimos se quer conduzir a leitura de um texto em sala de aula? Isto é um desabafo, sim, mas uma reflexão também sobre a proposta do texto, que nos faz pensar em como pensar a diversidade geracional. Para pensá-las precisamos conhecê-las, para conhecê-las precisarmos trazê-las para o espaço escolar.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Refletindo a Diversidade Religiosa


Este texto foi produzido a fim de atender a proposta do curso Produção de Material Didático oferecido pelo Polo Universidade Aberto de Novo Hamburgo – UAB/UFRGS/NH. Esta reflexão deve ser entendida como um exercício que instrumentaliza o professor na sala de aula e o capacita para atender a diversidade religiosa em sala de aula. No período em que a atividade foi proposta e realizada eu ainda não exercia o trabalho de professora em sala de aula, por este motivo a construção do texto se da no futuro. Entretanto, hoje, lecionando a disciplina de Ensino Religioso terei a chance de aplicar esta atividade em sala, a fim de debater com os alunos sobre a importância de se conhecer a diversidade religiosa (o pertencimento do outro) que nos rodeia para promover, a partir deste conhecimento um debate sem preconceitos, cara limpa e após esta desconstrução, reconstruir novos pensamentos.
Fui batizada na religião católica, fiz primeira comunhão e crisma. Hoje isso para mim significa uma mera formalidade imposta pela minha família e que tem importância para eles que acreditam em Deus. Para algumas pessoas sou católica não praticante, pois não pratico a religião mesmo sendo batizada, mas hoje, sou ateia por uma série de constatações ao longo a minha vida. Mesmo assim, quando eu estiver exercendo o magistério pretendo conhecer o pertencimento religioso de meus alunos e se possível falar sobre o tema em sala de aula. Se a escola não promover atividades a fim de valorizar os diferentes pertencimentos religiosos, pretendo sugerir, atividades que os valorizem, a fim de estimular o respeito entre os alunos por esta diversidade, a partir do conhecimento. As escolas públicas que conheço não ostentam símbolos religiosos nas paredes e portas, por pertencerem ao estado laico, percebo esta prática em escolas com perfil religioso. Contudo, ao assumir a sala de aula não pretendo rezar com os alunos, mas poderei sugerir que cada um faça a sua reflexão silenciosamente, caso ocorra interesse e diversidade de pertencimento religioso. Entretanto, se a turma for de um mesmo pertencimento religioso e todos concordarem em rezar, aceitarei, a fim de atender um pedido que é importante para eles. A reza para mim não tem nenhuma importância, mas quando eu estiver trabalhando em uma escola conversarei sobre o tema da diversidade religiosa e da escola pública laica, pois entendo que este debate poderá contribuir muito para que uns conheçam a escolha religiosa dos outros e também para que entendam que o papel da escola laica é assumir uma postura neutra e respeitar e fazer com que sejam respeitados os pertencimentos religiosos de cada um.
Referência: Atividade para o módulo II baseado no texto do Fernando Sefner

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Produção de Material Didatico: Diversidade na Sala de Aula

O papel da escola para a provocação de novos modos de existência
A escola é o espaço onde circulam pessoas, cada uma com a sua complexidade e particularidade, sendo elas: professores, estudantes, secretárias, direção, orientadores, segurança, estão cumprindo uma missão, exercendo um papel e carregando em si a sua história, escolhas e maneira de pensar e de viver. Os diversos modos de existência das pessoas que circulam na escola podem promover infinitas provocações desde que encontrem espaço para tal. A escola deve constituir, em seu dia a dia como um espaço aberto ao debate, para que através dele as pessoas possam expressar suas impressões, aprendendo que aceitar novos modos de existência é também permitir ao outro que conheça e aceite modos existência até não conhecido. Promover o debate desconstituído de pré-conceitos, permitindo que cada um se mostre sem medo do desconhecido, destituídos das máscaras adquiridas ao longo da existência de cada um, permitirá mais aceitação e menos medo de julgamentos. Se tornar um lugar de experimentação da própria vida, é exatamente o que ocorreu com professora e sua latinha de Coca Cola, conforme o texto. Ao aceitar o questionamento da aluna, a professora permitiu certa intimidade, falando de sua vida pessoal “geração Coca Cola”, ela saiu do mundo formal do ser professora e deixou acontecer um debate entre todos. Este exemplo mostra que a escola e seus públicos possuem infinitas possibilidades de iniciar uma provocação e promover um debate onde todos têm a ganhar: mais intimidade que implica em mais conhecimento e consequentemente novas experiências que farão de cada um, na escola o protagonista de história de vida. Esta aproximação entre estudantes e professores, não significa, contudo, que será permitido uma invasão de privacidade, ela apenas poderá ser a possibilidade de novos debates, novas maneiras de conhecimento, promovendo o entendimento e a aceitação de cada um para com o outro.
O jogo identidade/diferença, e o papel de cada um na formação das novas gerações.
Refletir sobre o jogo identidade/diferença é tarefa complexa e ao mesmo tempo genérica, sendo assim vamos refletir sobre a sociedade, grupos (trabalho e amigos) e sobre a família, para início de conversa, tendo em vista que ampliar esta reflexão requer, talvez debates mais amplo.
A Identidade mostra o pertencimento a uma determinada sociedade, grupo ou família: na sociedade, o sentimento de pertencimento ocorre por fatores mais amplos, onde as regras são criadas pelas atitudes, ações políticas, crença religiosa, a língua. São muitos fatores que vão construindo a cultura local e dentro dela encontramos grupos, mais particulares que mostram como novos modos de vida - o grupo pode se de trabalho, aqui a aproximação se da por afinidades de formação ou compromisso de trabalho, em que cada um exerce uma função de trabalho. No grupo de amigos a aproximação se da pelo que se diz gosto: musical, simpatias, maneira de vestir, estudam em uma mesma escola. Podemos incluir aqui as paqueras, namoros e futuras famílias. Na família as relações são vitais, desde que nasce cada um vem com uma bagagem cultural e esta bagagem muitas vezes ser torna a questão mais complexa de ser entendida e por isso sofre discriminação e não aceitação de maneira visível, por vezes é onde se cristaliza pré-conceitos que serão levados ao convívio com outros.
A diferença está presente em todas as pessoas, pode ser física, social, econômica, religiosidade, hierarquia profissional, cultural. O jogo identidade/diferença está presente em todas as “tribos”, ou seja, cada comunidade, grupo ou família que se identificam entre si na composição do grupo carrega consigo a sua diferença. Estas vão influenciar de maneira positiva ou negativa na vida de cada pessoa. Se as diferenças são aceitas no conjunto de pessoas, elas poderão promover muita riqueza cultural para todos, se discriminadas promoverão atritos, desentendimentos, rancores e não contribuirá para a segregação dos diferentes. Esta reflexão permite pensar que as diferenças promovem a identidade, assim como a identidade é composta pela diferença. Em relação ao conhecimento sobre o jogo diferença/identidade nas novas gerações, possivelmente serão mais viáveis, pois o debate de hoje promoverá o conhecimento de amanhã.
Exemplos acerca do ensino de histórias silenciadas e outros.
As histórias silenciadas e esquecidas do negro e do índio, hoje refletidas na academia e a busca pelo tempo perdido, a fim de por em pauta essa “lacuna” no ensino no ensino de história pode ser vista como a perspectiva de uma grande mudança sobre a construção de memória/identidade brasileira. Esta memória/identidade que se conhece na academia poderá ser percebida e entendida pelos brasileiros em seu cotidiano, como uma questão cultural, a partir do momento em que conceba a nossa identidade como cultura.
Podemos propor a questão da hossexualidade que é silenciada pelo preconceito e muitas vezes entendida como doença ou desvio de caráter, perversidade. Ao se tentar discutir sobre o assunto ainda se houve: “eu respeito, mas não quero isso para meu filho ou filha”, “vamos curá-lo deste desvio”, esta expressão se percebe no sermão de algumas igrejas e ainda “nós não apoiamos os gays por isso não frequentamos festas que eles frequentam”. Entre outras expressões na tentativa de justificar e minimizar o pré-conceito. A escola é um espaço democrático que poderá incluir e até comprar a “briga” desta discussão, assim como a discussão sobre a sexualidade, uso de preservativo, gravidez na adolescência e outras doenças sexualmente transmissíveis. Estes assuntos os Pais não conseguem falar em casa, por que é falar de si, é se expor aos filhos, então talvez a escola tenha que a protagonista desta mudança pensamento.
Outra proposta a ser pensada como mudança em sala de aula, para o ensino de história é tentar desmistificar o preconceito em relação ao português, e tudo o que eles construíram aqui, comparando com os imigrantes alemães e italianos. Estes são vistos como os que trabalharam transformando a sociedade brasileira, organizando-a de maneira “inteligente” e o português foi preguiçoso, desorganizado e “burro”. Penso que uma das formas que podemos começar a mudança sobre este debate é levar para a sala de aula o estudo sobre o contexto de desenvolvimento dos países: Portugal, Alemanha, Itália entre outros, a fim de mostrar que ocorreram mudanças na Europa desde a vinda dos primeiros portugueses até a vinda dos outros imigrantes. A que se estudar a cultura e o contexto histórico, político e econômico de cada um, para que assim seja possível promover um debate acerca da particularidade de cada um.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Refletindo a diversidade em sala de aula

Diversidade é tudo o que não é igual. Em relação às pessoas podemos dizer que cada uma possui características próprias, sendo elas físicas: altura, cor da pele do cabelo, cor dos olhos, as pessoas portadoras de necessidades especiais, etc.; e as subjetivas: humor, jeito de ser, de pensar, crenças, etc., a diversidade cultural está relacionada aos costumes, a escolha da religião, ao meio em que nasceu: etnias, etc.; a diversidade é o casamento homossexual; as religiões que cultuam diferentes Deuses e cada um defende o seu Deus como o único e verdadeiro. A diversidade está todos os lugares, ela pode estar mais ou menos perceptível aos olhos. Em ralação a etnia, percebemos a cor da pele como o negro, o índio, o pardo, o amarelo, etc., esta, encontramos com facilidade em nosso cotidiano, por outro lado, as diversidades menos visíveis estão relacionadas e escolhas das pessoas: o casamento homossexual, a religião, estas serão percebidas no convívio mais próximo e mais longo. Sendo assim, eu percebo elementos de diversidade na minha escola, na minha cidade e na minha sala de aula. Os elementos de diversidades encontrados na minha escola são: escolha da religião, cor da pele, pessoas com necessidades especiais. Pensa a diversidade como algo bom, que faz as pessoas saírem de seu ambiente de conforto fazendo-os pensar em como lidar com ela. Por exemplo: quando encontro pessoas que se comunicam através da língua de sinais, tenho dificuldade em entender e acompanhar a fala. Esta dificuldade pode me fazer buscar conhecimento em libras ou pelo menos tentar, entretanto, a falta de conhecimento para lidar com a situação provoca afastamento pelo medo do diferente. A diversidade é uma riqueza para o trabalho pedagógico se for bem trabalhada. Se o professor estiver preparado, capacitado para lidar com a diversidade ele poderá fazer dela uma ferramenta de enriquecimento na sala de aula. Quando aprendermos como lidar com o que não estamos habituados teremos oportunidades de promovermos grandes mudanças em nosso cotidiano e também maiores aceitação e respeito pelo outro. Entretanto, se não houver investimentos adequados na formação de professores, e técnicos na escola, a diversidade não será um desafio, mas um problema que prejudicará muitas pessoas. A diversidade religiosa é bastante delicada para o debate em sala de aula, pois para debatê-la será necessário mexer com a subjetividade: sentimentos e crenças das pessoas. Quando pensamos em debater ou explicar as distintas religiões em sala de aula temos que pensar no outro como um ser que acredita em algo que não podemos ver, e que vem carregado de superstições e medo do castigo de Deus ou Deuses. Ao estudar/ensinar história como uma ciência do passado do homem nos deparamos com leituras que contradizem as crenças religiosas, sendo assim, precisamos nos sensibilizar na sala de aula a fim de dar espaço aos diversos pontos de vista e pertencimentos religiosos.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

A ESCRAVIDÃO NO BRASIL - Reflexão

PINSKY, Jaime – A escravidão no Brasil: As razões da escravidão; sexualidade e vida cotidiana, as formas de reistência - São Paulo, 9º ed., Contexto, 2004.
O autor: Jaime Pinsky, historiador e editor foi professor na Unesp, USP (da qual, é doutor livre-docente) e Unicamp (onde se tornou professor titular). É autor de vasta obra, em que se destacam os livros Origens do nacionalismo judaico, As primeiras civilizações, Cidadania e educação, 12 faces do preconceito; Brasileiro é assim mesmo e as coletâneas 100 textos de História Antiga e História da América através de textos.
A obra de Jaime Pinsky sobre a escravidão no Brasil é composta por quatro capítulos sendo eles: Ser escravo; O escravo indígena; O escravo negro e Vida de escravo.
No capítulo Ser escravo, o autor aborda a questão do, escravo ter um dono, ser comprado como mercadoria e desta forma, perde seu poder deliberativo, como ser humano, tornando-se propriedade de quem o comprou, além disso, o escravo pode ter vontades, como todo o ser humano, mas não pode satisfazê-la, pois sua vontade pertence ao seu dono é uma relação de submissão total.
Segundo o autor, Portugal estava com defasagem populacional devido a guerras e epidemias e a forma de suprir esta falta, foi a escravização, primeiro do índio e posteriormente do escravo, precisa de mão-de-obra para as navegações e para o trabalho na colônia.
No capítulo “O escravo indígena”, o autor mostra que no primeiro século da história do Brasil, os portugueses utilizavam o trabalho do índio, que foram capturados, e “deslocados do seu ambiente e exposto a doenças, o índio era submetido a condições de vida terríveis“ (Pinsky, 2004, p.19), sem poupar mulheres e crianças. Uma das justificativas para a captura era o que se chamou de guerra justa, autorizada pela coroa e pelos governos contra os índios antropofágicos, pois estas tribos representavam uma ameaça ao homem branco e a outras tribos.
No capítulo, “O Escravo negro”, o autor salienta sobre a origem do negro, de onde ele foi trazido, sua dominação, o trabalho no engenho e o cativeiro. O negro foi a principal mão-de-obra na fazenda do café e do açúcar com uma jornada de trabalho muito intensa.
Quanto à origem, o negro foi trazido da África, de uma região, hoje conhecida com “região que vai da embocadura do Rio Senegal até o Rio Orange, atual Gabão” (Pinsky, 2004, p.30). O transporte do negro era feito em navio, em péssimas condições onde muitos morriam por epidemias e por falta de higiene. O autor mostra através de gráficos o número de negros que embarcaram, quantos morreram e quantos chegaram no Brasil. Estes dados mostram que as embarcações eram de mercadorias humanas. Além disso, havia o Mercado, local onde o negro ficava até ser comprado pelo fazendeiro.
No capítulo “A vida de escravo”, o autor mostra a jornada de trabalho, muito extensão, podendo chegar até 18horas de trabalho diário, além disso, a moradia, a vestimenta e o lazer planejados e determinados pelo senhor da fazenda. O escravo, negro ou índio, que tentasse fugir era punido com muita violência, podendo ser morto no castigo, os objetos utilizados são diversos, sendo: máscaras para evitar que o escravo engolisse ouro para depois recuperar e vender e para evitar que se embriagassem em horário de trabalho.
Os escravos que trabalhavam na agricultura, tanto o homem quanto a mulher sofriam os mais diversos tipos de violência, tanto no trabalho da lavoura, quando não satisfaziam a jornada de trabalho ordenado pelo senhor, e a mulher negra sofria violência pelas mãos da sinhá, por ciúme de seu marido, quando este tinha um caso com a escrava. A sinhá podia mandar matar ou torturá-la, ademais, as crianças que poderiam se fruto da relação entre senhor e escrava também eram assassinadas.
A obra de Pinsky é muito rica na clareza de conteúdo e muito completa com ilustrações que mostram a captura dos índios por caçadores; o mercado onde ficavam aguardando serem comprados; o navio onde viajavam; a vida na senzala e os negros, utilizando máscaras de castigos, assim como outros objetos de tortura. Outro recurso enriquecedor foi a utilização de gráficos, pois possibilitou mais clareza sobre os números de escravos comercializados e o número de mortos.
O assunto escravidão não se estanca devido à complexidade e amplitude do processo, pois os escravo estavam em toda a parte, na agricultura, na cidade, nas casas das fazendas, nas repartições públicas, em fim, em todos os lugares onde havia necessidade do trabalho escravo. Sendo assim há sempre a possibilidade de uma interpretação nova sobre o mesmo assunto, ou uma interpretação nova sobre o escravo em locais ainda pouco pesquisados. Conforme o autor, “na impossibilidade de tratar a vida cotidiana dos escravos em todas as atividades, vou me ater ao escravo da agricultura cafeeira”, (Pinsky, 2004, p.47). É complexo por se tratar do ser humano, envolvendo homens, mulheres e crianças, que tornarem mercadoria de outro homem, portanto, o assunto escravidão pode ser tratado em cada situação isolada, sendo possível um trabalho envolvendo a questão da mulher, da criança e do homem independente um do outro.
É uma obra que contribui muito para o estudo sobre escravidão indígena ou negra e possibilita a reflexão sobre o que se deve a essas pessoas que foram muito importantes para desenvolvimento do País. Como seria nosso país sem a mão-de-obra escrava?
São Leopoldo, novembro de 2006.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Da série recordando a sala de aula

Este texto foi criado após uma aula ministrada pela Professora Eloisa Capovilla Ramos e ao relê-lo resolvi compartilhar com os leitores de meu blog, pois esta é uma maneira de mostrar o que produzimos em sala de aula quando estudantes do curso de História, e também é uma maneira refletir sobre o assunto História e Literatura.
Segundo a Professora Ramos, os historiadores buscam a literatura para construir seu texto e literatos também buscam a história para construir sua obra de ficção. Nas últimas décadas, dos anos 90 aos 2000 passou a se perguntar o que aproxima e distancia a história e a literatura e como estão sendo escritas no Rio Grande do Sul, além de ver como os autores constroem o Índio, o Açoriano e o Alemão. Estas etnias foram consideradas como um grupo homogêneo, pois não se percebia as características próprias de cada ser, por considerar que os Índios não diferiam entre si, assim como os Alemães que vieram de regiões distintas de um País ainda não unificado, como a Alemanha e os Açorianos que não vieram da mesma região.
Segundo Correia (2006) “em 1973, o governo do estado decretou o Biênio da Imigração e Colonização (1974/1975) e o Instituto Estadual do Livro selou uma série de livros sobre os alemães, italianos, judeus e poloneses. A partir de então, tem-se uma imagem em mosaico da história regional, cuja composição étnica teria se diversificado no decorrer dos séculos XIX e XX”.
Pensava-se que a Literatura e a História eram próximas, tendo como primeira aproximação elementos do tecido do contexto social, mulheres e homens usados na Literatura tomam corpo na História e esta averigua elementos sociais e políticos presentes na peça Literária. E, o que distancia é que a Literatura tem como pressuposto a ficção e a História a cientificidade e a aproximação com a verdade. Mas o que realmente aproxima a História e Literatura é a narrativa, como gênero, forma racional é comum ao discurso da História e da Literatura, pois ambas falam da narrativa, então pode-se discutir mais semelhanças do diferenças entre elas.
Em relação às fontes e autores, Capovilla citou a Professora Sandra Pesavento (1990), que escreve sobre História e Literatura e o diálogo entre elas. Para distingui-las, a primeira busca o que passou e a segunda cria o enredo que poderia ter ocorrido. Só o Historiador mostra que sua versão FOI, aconteceu, pois trabalha com ferramentas além do que o Literato usa. O trabalho com as fontes históricas possibilita nos aproximar da verdade. Hoje se vê que a troca de informações entre o historiador e o literato enriquece a historiografia. A História se preocupava com a narrativa dos fatos verídicos, mas hoje já existe a história cultural e do imaginário, sendo possível de trabalhar as fontes. A professora usou uma metáfora: o historiador deve usar óculos de míope para ver os detalhes de informações de uma fonte.
Citando a historiografia literária, temos A Casa das Sete Mulheres, que é literatura calcada na História e aí podemos perguntar quantas mulheres havia realmente naquela casa esperando pelos maridos que foram para a guerra. Domingos José de Almeida estava na guerra e escrevia para a esposa pedindo que se encontre com ele em determinado lugar, e isto era propor a sociabilidade em plena revolução. Segundo a palestrante, obra literária mais completa são O Tempo e o Vento de Érico Veríssimo, que mescla informações históricas com ficção. Desta obra se pergunta: é historia ou literatura? Outro exemplo de literatura é Contos Gauchescos de Simões Lopes Neto, que também faz interpretação da história do Rio Grande do Sul.
Hoje, o historiador pesquisa sobre a história do Rio Grande do Sul, sobre o contrabando, pois fora considerado uma região de fronteira, tendo uma formação contrabandista. Nos anos 30 houve a modernização da Capital, Porto Alegre e aí surgem obras calcadas na História do Rio Grande do Sul, podendo ser outro exemplo, Luis Antonio de Assis Brasil.
Como as Etnias aparecem nos estudos históricos e literários? Solano Lopes Neto, em sua obra: Melancia e Coco Verde, fala dos açorianos e o descreve como um boca-aberta, um engomadinho, que não sabia montar e que dificilmente as mulheres se interessariam por homens assim. Érico Veríssimo também descrevia o açoriano como um homem que não sabia montar, não eram gaúcho. Já, o negro na obra do Érico tem valor moral, já o índio, Pedro Missioneiro, mesmo não tendo prestígio na família gaúcha, deixou um filho que foi criado e aceito pela família de Ana Terra, mulher com a qual se envolvera. Este autor aborda mais o homem do que a mulher.
A sociedade riograndense é formada por etnias diversas como: o negro, o índio, o alemão, o italiano, belgas, holandeses, suíços, entretanto, muitos belgas, holandeses, suíços que chegaram com os alemães e posteriormente com os italianos, “foram registrados como alemães ou como franceses, dependendo da língua e italianos do Tirol, como austríacos” (Correia, 2006). Esta falta de distinção entre os grupos influencia na forma como os brasileiros viam os imigrantes, aparentemente um grupo de pessoas que vieram de outro país, quando, na verdade vieram grupos distintos de diversas regiões, cada um com suas peculiaridades. Estes registros deturpados, na pesquisa historiográfica influenciam a interpretação dos dados, assim como o negro que veio de distintas regiões da África, fica entendido como um grupo homogêneo, de uma região única e esta é o olhar brasileiro/riograndense sobre as etnias.
Borges Fortes diz que o Rio Grande do Sul era formado por casais açorianos e que não fora formado por raças inferiores como o resto do Brasil. Esta fora uma visão no período do centenário da Revolução Farroupilha e então faltou a percepção dos grupos que fizeram parte da formação deste estado, como os negros, os índios, os açorianos e outros.

Bibliografia consultada
CORREIA, Silvio. Multiculturalismo e Fronteiras Étnicas. In: PICCOLO, Helga; PADOIN, Maria. (Org.). História Geral do Rio Grande do Sul – Império. Passo Fundo/RS, 2006, v.2, p.257-278.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Da série recordando a sala de aula

2) Fatores que contribuíram para a desestruturação das sociedades pré-colombianas, segundo GIBSON e WACHTEL:

Segundo Gibson, os Espanhóis capturavam e escravizaram Índios, independente da classe social, na qual o mesmo estava inserido. Forçados a trabalhar na agricultura e extração de minério (ouro), num ritmo intenso, obedecendo a leis que até então não conheciam. Os povos nativos da América se deparavam com uma nova realidade cruel: trabalho pesado e punições violentas. Antes da colonização, as civilizações pré-colombianas obedeciam a leis próprias e possuíam um líder que em alguns casos era também representante de Deus – havia uma integração entre religião e política. Desta forma, a sociedade se organizava, obedecendo, o líder político religioso. Com isso, os conquistadores espanhóis puderam montar sua estratégia que consistia em capturar o governante indígena, enfraquecendo toda a comunidade, que então não oferecia resistência, facilitando a dominação espanhola.
Os índios, designados chefes pelos espanhóis, eram forçados a promover a igreja e as instituições espanholas, fazendo pressão com a comunidade na qual estavam inseridos, entretanto, os desobedientes sofriam severas punições e poderiam ser assassinados e substituídos por sucessores dispostos a cooperar. Desta forma, os nativos, escolhidos chefes, eram obrigados a controlar seus semelhantes, exigindo deles obediência e trabalho forçado, contribuindo com a desestruturação da própria sociedade, em prol da sociedade espanhola.
Foram muitos os fatores que contribuíram para a desestruturação das sociedades pré-colombianas, destacando alguns, podemos citar Wachtel, que nos dá uma relação, intitulada “O trauma da Conquista”.
Wachtel nos conta que houve uma coincidência entre o calendário dos nativos, com presságios e profecias, anunciando o fim dos tempos, pois segundo as crenças, uma civilização seria sacrificada para a satisfação dos deuses e no lugar dela surgiria outra. Esta profecia se cumpriria no ano ce-acatl, e os espanhóis chegaram na América neste mesmo ano, então foram considerados deuses que retornaram.
Havia também, descontentamento das tribos que eram exploradas por outras dominadoras, que cobravam impostos. Sendo assim, os espanhóis receberam apoio dos descontentes para lutar contra os exploradores, pois as tribos exploradas acreditaram que aqueles homens brancos os ajudariam a conquistar a liberdade.
Além de todos estes fatores, as doenças do homem branco: varíola, sarampo, gripe e peste, dizimaram o povo indígena e os que sobreviveram passaram a beber descontroladamente, tornando-se alcoólatras, pois seu mundo: costumes, crenças, e tradições desabaram diante dos olhos. Foram obrigados a falar a língua espanhola e cultuar um Deus único totalmente estranho. Em pouco tempo os nativos perceberam que o homem branco não era amigo.
A desintegração das sociedades americanas fora causada não só pelo impacto psicológico, o trauma da conquista atingiu-os no âmbito demográfico, social e ideológico.